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Sobre País estrangeiro


País estrangeiro - Memórias de um Brasil profundo é uma coletânea de poemas, contos e crônicas da escritora Ivete Nenflidio.
ISBN 978-65-00-26775-4

São narrativas que percorrem a dramática realidade vivenciada pelo povo, retrato fiel dos rincões do país, lugares inóspitos onde a seca, a miséria e a violência são práticas históricas, cotidianas e, infelizmente, atuais.
Uma obra construída durante muitos anos, período que a autora viajou pelo país produzindo espetáculos artísticos.
Seus textos são críticos, atemporais e, ao mesmo tempo, leves e cheios de emoção, em muitos momentos são tomados por uma densidade e tensão que nos transportam para locais distantes, outras vezes mapeiam a cultura oral, apresentando a ancestralidade presente em muitas comunidades.

Manuel Luiz Freitas (Ed. Beira)
Sobre País estrangeiro

País estrangeiro


País estrangeiro
O sertano

A diversidade cultural está no quotidiano do povo brasileiro: misturas reconhecidas na culinária açoriana, presente no estado de Santa Catarina; encontrada na gastronomia alemã, presente no estado do Rio Grande do Sul; decorre na cidade de São Paulo, no Bairro da Liberdade; sobrevive na arquitetura francesa do Centro Histórico da cidade de São Luís do Maranhão.
As diferenças culturais estão presentes nas manifestações populares e nas danças típicas folclóricas lusitanas, que atualmente ainda são reproduzidas e prestigiadas nas cidades do interior do país.
Perdura nos festivais de viola caipira, que ganham cada vez mais adeptos, sendo o símbolo das rodas de música do interior, também conhecida como viola sertaneja e viola cabocla — dependendo da região do país —, derivada das violas portuguesas que por sua vez remontam aos alaúdes de origem arábico-persa.
Está na vestimenta, na língua, nas festas religiosas, no artesanato indígena, na patrimonialização de diversas tradições como a cachaça de alambique mineira e o queijo da Serra da Canastra, que foram tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Está presente nas tantas interferências externas e migratórias que formaram uma nação tão diversa como o Brasil.
Mantém-se na literatura de Cordel, que tem origem na Idade Média europeia; ou nas cantigas dos cantadores sertanistas, cuja origem remonta aos trovadores medievais, como é o caso do artista Elomar Figueira Mello.
É sobre esse cantador que quero contar uma história...
Nos meus mais de vinte anos de carreira na área artística, presenciei situações inusitadas, muitas faceciosas, outras trágicas.
Vou contar uma história que gosto muito: em 2002, conheci pessoalmente um gênio da música brasileira, definido por Vinícius de Moraes como o príncipe da caatinga.
Trata-se de Elomar Figueira Mello, um artista singular, um homem incomparável, compositor de óperas e cantorias, e que consegue, como ninguém, expressar a beleza de um Brasil inexplorado. Muitos o consideram um menestrel que produz sua obra inspirado nas cantigas da Antiguidade. Para mim, é um dos maiores poetas da música brasileira, suas realizações artísticas são tão grandiosas e belas que me faltam palavras para descrevê-las, podendo ser considerado único em seu gênero.
De temperamento recluso, não permite ser fotografado, não aprecia a intensa exposição da imagem, acredita que os artistas devem ser reverenciados pelo trabalho desenvolvido, sem ter que se sujeitar às artimanhas da indústria fonográfica.
Não concede entrevistas, prefere ser autônomo e independente em suas produções. Se você o procurar na internet, por exemplo, encontrará pouquíssimas matérias ou fontes sobre ele e sua obra. Entretanto, seu acervo artístico é inspiração para muitos e é utilizada como fonte de trabalho e pesquisas para dissertações acadêmicas.
Poderia dispor, em suas criações, de um variado conjunto linguístico, pois, além do domínio da língua portuguesa clássica e do latim, também compreende línguas estrangeiras, como o espanhol, o inglês e, principalmente, o francês. Entretanto, prefere apresentar o dialeto catingueiro, construindo, a partir da consciência dramática da linguagem, uma poética enraizada no sertão.
Artista genial, é também bastante excêntrico. Lembro de estarmos em um elegante restaurante de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, ele com seus trajes sertanistas, com um paletó de couro surrado e botas ainda impregnadas de terra. Além do tradicional chapéu, usava também um embornal, o qual nomeou, carinhosamente, de “vaca”. Da bolsa, ele retirou um pote de pimenta, outro de charque e um recipiente com uma substância farinácea. Fez sua refeição e fomos embora. O garçom não questionou a atitude do artista, só observou à certa distância.
À noite, outros três acontecimentos chamaram a atenção. O primeiro foi a decepção de Elomar. Ao pararmos em frente à extinta casa de espetáculo “Canecão”, ele fitou os olhos na janela da “van” e disse que estava muito decepcionado, pensava que o local tivesse uma arquitetura inspirada em uma caneca, e que aquela sala de concertos era apenas um caixote gigante, a franqueza de um arquiteto de formação. O nome “Canecão” realmente fazia referência a uma "caneca", já que a casa de concertos foi, originalmente, concebida como uma grande cervejaria, isso anos antes de se tornar um espaço dedicado às apresentações artísticas musicais.
No mesmo dia, outro acontecimento cômico envolvia Elomar. Dessa vez, a produção também estaria envolvida. Existiam dois telões laterais ao palco, ambos projetariam o espetáculo com a transmissão simultânea do concerto, afinal, a casa era grande e a plateia que ficava em setores menos privilegiados seria beneficiada por essa exibição.
Era um “item” necessário, mas Elomar foi claro, não aceitava que sua imagem fosse projetada nos grandes telões, ameaçou deixar o palco caso desrespeitássemos sua vontade. Obviamente a gerência da casa ficou furiosa, mas, no fim, aceitaram a condição.
Ligaram os equipamentos somente após Elomar finalizar sua apresentação, utilizando-os apenas nas demais atuações artísticas que ocorreriam naquela noite de festival. Não parou por aí. Elomar era o artista que abriria o concerto e toda a divulgação informava que o início do espetáculo seria às 22h. Pontualmente, ele estava nos bastidores, preparado para iniciar sua atividade nesse horário. Empunhando seu violão, dizia que entraria no palco e iniciaria a peça, apresentando suas árias.
Entretanto, as luzes da sala ainda estavam acesas, os áudios de segurança não haviam sido acionados, os operadores de som e luz não estavam em seus postos — isso porque a casa divulgava o início do espetáculo às 22h, mas, de fato, o evento iniciaria uma hora mais tarde.
Sabemos que as grandes casas de concertos faturam bastante com o consumo de bebidas, portanto, a casa em questão não iria ser pontual, mesmo que os artistas estivessem prontos e preparados para entrar em cena. Lógico que foi muito difícil convencer o excêntrico cantador. Ele ficou realmente incomodado, disse que seu público merecia sua pontualidade. Claro que concordo com ele, mas a indústria artística não é perfeita, sua finalidade principal nem sempre é fomentar a arte.
O público também não é perfeito, a maioria segue a rigor o horário, respeitando e fazendo silêncio, mas existe a minoria, que atrasa e prefere conversar quando o artista apresenta aquele solo maravilhoso. Ninguém é insuperável, nenhum gestor cultural é exato, nenhum artista é perfeito, isso porque somos únicos e humanos com nossas peculiaridades, qualidades e defeitos.
Para quem não conhece Elomar, por favor, pesquise, vocês terão uma surpresa maravilhosa. Viva Elomar!!! 


Se chover?
A Carne do Bode


Certa feita, viajei com destino ao sertão do estado do Piauí. Naquela viagem, aconteceram situações extraordinárias...
Quem nos transportava era um jovem senhor, um jogador de futebol aposentado e famoso por aquelas bandas. Ele havia sido descartado pelo maior clube do estado, uma vez que ficara velho demais para correr atrás da bola.
Virou chofer, ganhava uns trocados conduzindo viajantes, era falante e não parava de conversar por um só minuto; prolixo, abordava dezenas de assuntos e os misturava, era confuso. Não compreendíamos o rumo daquela prosa.
Para tentar cessar aquela voz cansada, paramos no posto de combustíveis, precisávamos mesmo de um banheiro e de um lanche.
Estacionamos na porta de um minguado comércio local. A taberna era desabastecida, tinha apenas um atendente, um homem setuagenário ou, talvez, aquele sol infernal tenha acabado com a sua pele e, na verdade, ele era bem mais jovem.
Pedi um pingado e um pão na chapa. Ele respondeu que não tinha leite, apenas café. Aceitei, era ruim, sem gosto, muito fraco, esperei o pãozinho e, logo, ele disse que só tinha carne de bode. Eram oito horas da manhã, não queria comer o picadinho.
Fui ao banheiro, não tinha papel e o cubículo também não tinha telhado, você fazia suas necessidades olhando para o céu. Naquele dia, havia uns urubus sobrevoando o local.
Voltei ao pequeno comércio e avisei que o papel tinha acabado. O homem, então, me disse que eles não forneciam, mas tinha para vender: um real, um punhado e três reais pelo rolo. Comprei um punhado, pois não precisava do rolo inteiro, retornei para o banheiro e fiquei pensando no pobre bode que tinha virado café da manhã.
Se chover? (Parte 2)
Pedi pra chover, mas chover de mansinho (Luiz Gonzaga)
Finalmente, chegávamos à cidade de Picos. Era quente, um calor intolerável, e eu ainda desejava um café da manhã, sendo que, há pouco, de novo me disseram “não”, dessa vez por já terem finalizado o serviço.
Sem comida, esperei desesperadamente que o atendente liberasse as chaves do quarto, pensando que, talvez, no frigobar tivesse um achocolatado e biscoitos, quem sabe.
O jovem tapera que nos atendia detinha um ar afobado, era caótico, entregava as fichas aos viajantes, concomitantemente falava ao telefone, estirando o fio que parecia rebentar. Pelo jeito, éramos os únicos hóspedes da inospitaleira hospedaria. Não sei se por hostilidade, liberou a chave de todos do grupo, menos a minha, de modo que, na minha infindável espera, aguardava agoniada para ir ao meu aposento. Estava exaurida, completamente acabada, suada e faminta.
Quando, por fim, entrei no quarto, comecei esmiuçar cada canto daquele espaço limitado. Notei que o frigobar estava vazio e desligado do interruptor. Liguei para a recepção, questionando o motivo, e, então, o jovem informou que a geladeira era uma cortesia, eu deveria ligá-la e abastecê-la com produtos que eu poderia adquirir no centro da eremítica cidade.
Como uma boa escorpiana, com ascendente em Áries, tive vontade de gritar, surtar, mas respirei fundo, acalmei e saí em busca de alimento. Depois de saciar minha fome, fui descansar algumas horas, tinha que produzir o evento, me dirigindo mais cedo ao local.
Já pronta, saciada e descansada, aguardei o ex-jogador de futebol; assim que ele chegou, nos deslocamos ao local onde aconteceria o festival. Era um grande salão, comportava mais de mil pessoas.
Na casa de espetáculos, as mesas eram cobertas por longas toalhas, que iam até o chão, e cadeiras estofadas; havia também, pequenos espaços com sofás e poltronas. Um lugar elegante e ostentoso, em uma região tão pobre, era surpreendente. A desigualdade era escandalosa. Porém, ali também não havia teto, assim como no banheiro do senhor sisudo, o qual não tinha qualquer cobertura.
Eu observava o céu: nuvens escuras e um vento muito forte. Tive de prender os cabelos, uma poeira insistia em cegar, uma ventania típica de grandes tempestades. Rapidamente, busquei a produtora responsável pelo evento e perguntei o que fariam caso chovesse; a jovem sorriu e, educadamente, respondeu que choraria de felicidade.
Não chovia naquela cidade sertanista há mais de uma década!


A torre

Quando criança, frequentava as missas matutinas que aconteciam aos domingos. Não conseguia assimilar aquelas elocuções, mas gostava de testemunhar as pessoas que, em súplicas emocionadas, em prantos incessantes, pediam aos céus e silenciavam.
Apreciava mesmo era a música. Esta parte sempre me cativou: as canções de protesto exibidas entre as orações e as citações sobre liberdade, emancipação e luta, que eram proferidas pelos padres da teologia da libertação. Suas falas eram fortes e exprimiam as dores de muitos que procuravam aquele espaço de reflexão.
Apesar de não decifrar os textos bíblicos, pois era muito garota, compreendia as falas sobre justiça, sobre dar pão a quem tem fome e essa parte da liturgia me agradava muito. Entre as mensagens de fé, canções de Chico Buarque e Geraldo Vandré...
Juro! Essas eram as canções que compunham parte do programa das cerimônias. Mesmo miúda, aquilo já me tocava profundamente.
Tempos depois, participei, contra minha vontade, dos cursos de catecismo e crisma. Eu era uma maquininha de fazer porquês e isso incomodava os ministros da igreja, que me mandavam ouvir, ficar quieta. Aos poucos fui perdendo o interesse.
Bom mesmo era subir na torre da catedral e observar lá do alto o centro da cidade. Adorava ver as pessoas lá de cima, os veículos, o efervescente comércio, a praça com seus campos floridos, as árvores de raízes centenárias — eram todos como miniaturas, escalas reduzidas, pequenas pinturas ou peças de um Playmobil, algo lúdico.
Com certeza a parte mais interessante do curso era me aventurar nas escadarias. Pena que logo descobriram minhas idas ao topo daquela torre empoeirada, cheia de pombos e teias de aranha, e, logo, bloquearam o acesso.
Já não conseguia subir os degraus que me conduziam a um lugar de profunda contemplação. Ali tudo era silêncio, não se ouviam as buzinas, a multidão... Era o único local onde de fato eu sentia Deus. Como na música de Gil, que diz, “Se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, tenho que encontrar a paz”, era justamente assim que me sentia.
Depois, descobri o que me emociona: percebi que o que me rege são as falas sinceras, os rostos enrugados das velhinhas segurando seus rosários, suas faces molhadas pelas lágrimas derramadas durante as procissões de fé.
A fé, essa sim emociona, a beleza das orações que buscam acalento em corações aflitos, a natureza tentando resistir, a inocência nos olhos de uma criança, a busca desesperada por alimento do pai de família, as dores humanas, os animais — isso tudo me arrebata, pois, nelas, vejo Deus.


A vingança

No início da década de 1990, aconteceu o confisco das cadernetas de poupança com boa parte da população perdendo o pouco que tinha, um terrível e agressivo sequestro.
Passada mais de uma década, presenciei uma cena quase teatral de tão dramática. Estava no restaurante do Grande Hotel Araxá, a glamorosa hospedaria possuía uma galeria suspensa, decorada com afrescos. O local se destacava pela grandiosidade de sua arquitetura, com pisos de mármore e grandes vitrais.
É um lugar de muitas histórias e aqui conto mais uma procês...
O tal ex-presidente, responsável pela apreensão de economias de muitos brasileiros, estava almoçando, cercados de seguranças, ria e se divertia com um grupo de homens. Eu estava sentada exatamente de frente para ele.
Naquele dia, testemunhei um dos episódios mais hilários de minha vida: uma senhora, já bastante idosa, se dirigiu até o buffet central, recolheu uma travessa de massa mergulhada em condimentos e foi em direção ao político, parou ao seu lado, acredito que queria ser ouvida, pois falou em voz alta a frase que ecoou pelo grande salão:
— Isso que faço é por você ter infartado meu marido. Finalizou a fala e despejou toda a macarronada sobre a cabeça do homem público.
Não acreditava no que vira, era a cena mais extravagante e surreal que alguém pudesse assistir. Ele não disse uma só palavra, levantou-se. Rapidamente, os seguranças o cercaram e todos daquela comitiva saíram silenciosamente do recinto.


Seu Agenor

A estrada me presenteou de muitas formas, conquistei amigos para a vida toda e conheci pessoas que ficarão para sempre na memória, também me mostrou um Brasil apaixonante, como a história do Seu Agenor, um senhor encantador, produtor rural e vendedor de rapadura.
O Brasil é um país com rica diversidade cultural que nos difere de tantos outros povos. Percebemos essas diversas culturas nos costumes, na música, nas artes, danças, festividades religiosas e na oralidade, nas palavras de gente simples, está presente também no jeito de comer, tradições passadas de pai para filho.
Um dia, conversei com um pequeno produtor rural, ele expunha em sua barraca os produtos produzidos de forma artesanal em seu sítio, eram pacotes de açúcar mascavo e pedras de rapadura, que eram vendidas por apenas R$ 5,00, valor insignificante, pelo tamanho do tijolo, devia pesar mais de um quilo.
Pensei, decerto é fácil preparar a iguaria! Perguntei como era a produção daquele doce, eu já separava umas três peças, enquanto ele embalava o açúcar mascavo em pequenos sacos transparentes. Gentilmente começou a responder minha pergunta.
— Moça, para preparar a rapadura, você primeiro tem que cortar e moer a cana-de-açúcar, depois você tem que cirandar.
Logo interrompi a fala do Senhor atencioso e perguntei o que seria cirandar. Ele respondeu.
— Fia, cirandar é coar, peneirar tudinho, tirar a parte ruim, deixar o caldo escasso, fininho, levinho para purificar bem, aí você leva para o tacho para a fervura do sumo e precisa manter o fogo forte, alto. O caldeirão não pode esfriar, você vai mexendo o melado até ferver e, depois que levantar fervura, continua misturando até encorpar. Para movimentar o caldo fervente, você deve utilizar uma vasilha grande, feita com metade de uma cabaça, veja, nunca use objetos metálicos você queimará suas mãos.
—  Continue mexendo, às vezes demora três horas, quatro ou até cinco horas, vai verificando o fogo e colocando mais lenha, deixa a chama acesa e brava. Depois que tiver encorpado, você derrama o caldo apurado em outro recipiente, é bom cirandar novamente, depois despeja na pedra e espera esfriar. Esfria rapidinho!
Ele terminou dizendo: — É fácil, minha fia!


Mestre da contação de causos

Todos sabemos que um instrumento musical é um objeto muito estimado pelos seus donos. Os mais surrados, aqueles marcados pelo tempo, aqueles que percorreram estradas, que encantaram gerações, são os mais adorados. Esses objetos têm grande valor afetivo.
Alguns músicos se vangloriam de usar peças antigas, lembro-me de um senhor da Orquestra Sinfônica do Estado do Paraná que me apresentou seu instrumento como uma criança que havia ganhado aquela bola preferida e tão desejada. Ele contava detalhes do objeto sonoro, a data da fabricação, como o havia adquirido, a quem pertenceu no passado, entre outras particularidades sobre o restauro e a afinação. Seus olhos brilhavam.
Vivi há uns anos um drama, era uma tarde, alguns artistas participavam da passagem de som, que nada mais é do que o momento quando os procedimentos de sonorização são adequadamente alinhados e ambientados, uma preparação para o concerto que acontece horas depois.
Estava passando próximo ao local da apresentação, parei e conversei com um dos contratantes do espetáculo parado em frente à estrutura de palco. Falamos sobre alguns detalhes de produção e nos despedimos.
O cantor, ator, compositor e mestre da contação de causos, Rolando Boldrin, me chamou. Me dirigi a ele para saber se precisava de algo, ele me fez algumas perguntas sobre o evento e me entregou seu violão. Me olhando nos olhos, solicitou que eu colocasse o instrumento sobre a cadeira de encosto de palha; imediatamente, atendi ao pedido e segui para fora do palco.
Alguns segundos depois, fui surpreendida por um barulho muito forte, o ruído era do violão que escorregara do assento, desfazendo-se em três partes no chão.
Quando virei e vi o instrumento destruído, quis morrer, minha vontade era cavar uma cova com as próprias mãos e me enterrar, queria sumir, foi uma queda impiedosa, não sobrou nada daquele pobre instrumento.
Apesar de o artista, gentilmente, ter falado que a culpa não era minha — afinal ele não deveria ter pedido para colocá-lo na cadeira, já que havia uma estante para os instrumentos —, mesmo assim, quis desaparecer e o fiz, retirei-me e chorei horrores.
Naquela noite, solicitei que ele me deixasse recuperar o violão, eu conhecia um dos maiores profissionais da luteria e queria ao menos tentar.
Tempo depois, levei o instrumento e o entreguei nas mãos de um artesão, tinha fé que ele arrumaria. Também adquiri outro novo para presentear o artista. Como eu imaginava, aquele mestre da luteria recuperou o violão, ficara praticamente novo.
Em poucos dias, me desloquei até a casa do artista com os dois instrumentos, estava de alma lavada, tinha reparado meu erro. Para alguém como eu, não bastava seu perdão, eu precisava me redimir. O artista ficou satisfeito.
Anos depois, nos encontramos em seu programa de auditório, ele me viu e disse: “espere aí, vou ali dentro buscar um violão velho procê quebrar!”.
Esse é Rolando Boldrin, um mestre da cultura popular, um gênio da contação de causos, um dos mais incríveis artistas da nossa genuína e imensa cultura brasileira.
Viva Rolando Boldrin!


Para todas as crianças do mundo

Ler é sempre a melhor forma de acalmar o coração!
Há alguns anos descobri uma versão do livro “O Pequeno Príncipe” com a tradução feita pelo maravilhoso Frei Betto, penso que é a mais bonita de todas que já li.
Sim, já fiz a leitura algumas vezes, a primeira vez foi em 2002, quando meu filho tinha apenas oito anos.
Na época estava viajando para a produção de um espetáculo musical, estávamos todos no aeroporto aguardando o “check-in”, era uma viagem com o compositor Renato Teixeira e sua equipe, o aguardávamos no saguão para o embarque…
Alguns minutos depois ele chegou apressado, carregava um embrulho, era um presente, um exemplar lindíssimo da obra, pediu que eu entregasse ao meu filho Tiago, um gesto super carinhoso.
Nunca tinha lido o livro, isso foi há quase 20 anos. Resolvi ler durante a viagem. Era um deslocamento para Fortaleza, o tempo foi exato, consegui ler o livro inteiro, finalizei quando os passageiros retiravam suas bagagens e se preparavam para descer da aeronave.
Eu estava em prantos, tentava digerir aquele texto, era surpreendentemente humano, considerado por muitos como vazia ou “leitura de miss”. Um absurdo, nada disso! O livro é encantador, aborda com doçura e simplicidade questões profundas.
É o segundo livro mais traduzido do mundo — só perde para a Bíblia. Talvez o mais incrível da obra sejam as lições de vida sobre amizade, amor e a existência humana.
Tem coisas lindas neste livro, sugiro que leiam para seus filhos... tem uma frase que amo: “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”.


Preservação

Foi realizada durante alguns anos uma feira de iniciativas sustentáveis. O evento acontecia na cidade de Alta Floresta, norte do estado do Mato Grosso, e contava com representantes dos setores produtivos, segmentos da sociedade civil e órgãos do governo federal, estadual e municipal. O objetivo do encontro era a busca de alternativas de sustentabilidade para a região.
Trabalhei em uma das edições; na ocasião, estive hospedada no mesmo hotel que Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente na época, fiquei muito impressionada com um pequeno discurso que ela proferiu à meia dúzia de jornalistas que a aguardavam no saguão da hospedaria. Acompanhava um grupo de artistas e sua equipe e quase perdi a hora, não queria parar de ouvir sua declaração; ela abordava, com muita propriedade, questões importantíssimas sobre a melhoria da qualidade de vida, da ampliação de renda, da equidade social e do equilíbrio ambiental.
Antes do show principal, no encerramento do evento, ela discursou novamente, dessa vez para uma plateia de cinco mil pessoas; sua fala era muito serena, coerente e embasada em dados técnicos e científicos. Não sei o que aconteceu, pois, com o tempo, a ex-ministra mudou o discurso, assumindo uma fala característica de fanáticos religiosos, intolerante, repugnante e agressiva.
Naquela ocasião, voltei para São Paulo com a alma lavada, acreditava que o meio ambiente estava protegido por existirem pessoas com propostas incríveis para o desenvolvimento sustentável. Fiquei realmente muito impressionada com tudo aquilo, as tecnologias apresentadas, as propostas sobre geração de trabalho e incentivos para empresas que criassem, ampliassem ou modernizassem os processos de reciclagem, investimentos no turismo ecológico, entre tantos outros assuntos que foram abordados. Eu idealizava que, próximo a 2020, mais de quinze anos depois, teríamos uma floresta preservada, imaginava um cenário com grandes investimentos na economia sustentável e crescente desenvolvimento das políticas de proteção ao meio ambiente e aos povos originários. Estava terrivelmente enganada!


O Velho do Glória

Algumas passagens são mesmo horripilantes. Frequentei muitos teatros antigos, espaços arquitetônicos tombados pela importância histórica e cultural, alguns com duzentos ou até trezentos anos.
Nesses locais, preferia não me afastar muito do restante da equipe, nunca percorria sozinha os fossos de orquestras ou, como são conhecidos, poços orquestrais – espaços abarrotados, obscuros, cheios de quinquilharias, estantes de partituras, cadeiras quebradas, praticáveis e objetos cenográficos.
São espaços misteriosos, quase secretos, cheios de barulhos enigmáticos. Os profissionais desses equipamentos diziam que esses ruídos eram passos de artistas que amavam o local e que, após morrerem, permaneciam ali, não desencarnaram.
Ouvia as histórias e, apesar de sentir arrepio, considerava aquelas narrativas patéticas, puro artistismo. Brinquei que aquilo era parte da encenação, me despedi do maquinista, zombando daquela narrativa, e me desloquei até o hotel.
O Hotel Glória era um espaço tão arcaico quanto o velho teatro, um antigo palacete do início do século XX, cheio de glamour e ostentação. Fui para o meu quarto.
Naquela madrugada, acordei assustada com um homem de características amistosas me olhando. Aterrorizada, corri, acendi todas as luzes e comecei a procurar o idoso senhor de olhar afável. Procurei dentro do armário, no banheiro, em todos os cantos, mas nada, aquela visão havia desaparecido. Nunca mais debochei dos artistas fantasmas.
Ira
Quero falar sobre a ira, esse pecado capital tão comum que produz guerras, conflitos entre nações e destruições continentais.
No fundo, todos temos que exercitar a paciência, prestar atenção aos pequenos sinais de descontrole, como a intolerância, o mau-humor e a impaciência, mas quando a ira provoca sentimento de vingança?
Um homem, que adquiria espetáculos artísticos e os revendia para as feiras do interior do país, havia entrado em contato para obter alguns concertos musicais.
Naquela época, os artistas só viajavam após receberem seus cachês integralmente, os recursos deveriam estar disponíveis por completo, pelo menos três dias antes da data prevista da viagem, entretanto, em alguns casos extremos era possível rever essas condições.
Foi o que aconteceu na feira de tecnologia de Monte Carmelo: viajamos para a cidade com a condição de recebermos o restante do cachê na chegada do grupo ao local do evento.
Como de costume, logo que chegamos, os artistas foram descansar e a equipe técnica se dirigiu ao local do evento. A produção, então, procurou receber o restante dos recursos.
Assim, busquei o contratante por toda a feira; sem sucesso, deixei um recado e voltei para o hotel. Alguns minutos depois, o mensageiro anunciou que ele me aguardava na recepção. Prontamente, desci para resolver a pendência de contrato e entregar a nota fiscal relacionada à parcela restante.
Munida de documentos e contratos, fui encontrá-lo. Ele, rapidamente, entregou uma folha de cheque; eu o olhei e disse que não aceitaria, pois o pagamento deveria ser em espécie, como o acordo estabelecido e assinado contratualmente.
Ele disse que eu poderia acreditar em sua honestidade, que o cheque tinha fundos. Mesmo assim, comuniquei que não aceitaria. Naquele momento, percebi que o homem ficou irado, um sentimento de valentia tomava conta daquele Senhor. Ele pediu alguns minutos e disse que em breve voltaria.
Horas depois, apareceu, talvez tivesse procurado fazer exercícios de meditação, relaxamento, não sei ao certo, considerei que ele estava calmo, bem diferente da forma que havia saído horas antes.
Fiquei feliz, pensei que o contratante tivesse, finalmente, compreendido o meu ponto de vista, pois precisávamos seguir o acordado, mas, para a minha surpresa, sua postura, aparentemente calma e serena, era parte de um plano perverso de vingança.
Ele perguntou se poderíamos realizar a entrega de documentos e o acerto do cachê no dormitório, o que achei estranho, mas aceitei. Chamei um dos músicos da banda para me acompanhar, ninguém menos que Natan Marques, o maior guitarrista de todos os tempos. Nos dirigimos ao aposento.
Chegando ao quarto, ele jogou sobre o lençol da cama cinco mil notas de um real, comecei a rir, não conseguia me controlar, ajoelhei e pus-me a contar aquele dinheiro sujo, encardido e suado. O controle emocional daquele homem era uma farsa, ele estava raivoso, havia cometido um dos sete pecados capitais. A ira!
Em situações mais graves, a ira se transforma em vingança, mas, como sempre, o pecador é quem mais se prejudica, é quem carrega o enorme peso nas costas pela injustiça cometida.
O surpreendente foi saber que, para realizar sua pequena vingança, ele acabou com os trocados da cidade. Horas depois, pediu desesperadamente que eu devolvesse o dinheiro, pois ele precisava das notas miúdas para fazer rodar a sua praça de alimentação.
Na feira, os comerciantes das barracas de alimentos estavam furiosos. A ira daquele homem provocou a fúria de outras dezenas de pessoas, numa interminável bola de neve, uma situação na qual se não devolvesse os trocados o problema só pioraria.


A Lua de Antonina

Muitos já participaram de concertos ao ar livre, são eventos que envolvem grandes produções, com muitos dias de montagem, contratações de estruturas pesadas e toneladas de equipamentos potentes.
Esses eventos movimentam a economia de pequenas cidades e são aguardados pela população local, entretanto, nem todas as produções são bem-feitas; algumas simplesmente não contratam itens obrigatórios ou decidem levianamente cortá-los.
Após uma deslumbrante viagem pela linda Estrada da Graciosa, chegamos à cidade histórica de Antonina. Como sempre, os artistas foram descansar e a produção e a equipe técnica se dirigiram ao local do evento para examinar a estrutura e alinhar detalhes técnicos com as empresas locais.
O trabalho durou a tarde toda, saímos de lá com tudo pronto para o grande concerto e retornamos poucos minutos antes do evento começar.
Os instrumentos foram plugados e o espetáculo iniciado. Logo na primeira canção, um corte de energia deixou todo o centro histórico no escuro, a iluminação do palco e o telão também desligaram, só o equipamento de som funcionava e os artistas decidiram que continuariam cantando e tocando.
Alguns minutos depois, uma lua grandiosa, majestosa, surgiu iluminando, refletindo nas vidraças dos antigos casarões seu reflexo intenso e resplandecente, findando o breu que tomara conta da região central. Durante todo o concerto, apenas uma pequena luz cedida por um jornalista iluminou o rosto do cantor.
Os técnicos passaram a noite inteira tentando solucionar o problema do cansado gerador. Faltando apenas uma canção para terminar o espetáculo, eles conseguiram, restabeleceram a energia, todos os equipamentos de iluminação e telões foram acesos e, aos gritos, o público pedia “apaga, apaga, apaga!”.


A mente brilhante de Geraldo Vandré

No início dos anos 2000, conheci Geraldo Vandré, o artista paraibano autor da obra-prima "Disparada" e do hino "Caminhando". Morava sozinho num antigo prédio no centro de São Paulo. Durante uma tarde inteira, conversamos sobre música, física e sobre seu projeto artístico.
Ele desejava produzir o concerto de uma amiga pianista que morava em Miami, o objetivo era construir uma grande estrutura no Paço Municipal da cidade de São Bernardo do Campo com, no palco, apenas a concertista.
Ele chegaria numa aeronave, sugeriu um helicóptero. Na época, não compreendi como seria sua chegada, perguntei se seria de rapel e ele respondeu, dizendo que não participaria do recital, apenas entregaria um ramalhete de rosas-vermelhas à intérprete.
Eu era bem jovem, tinha cerca de vinte e cinco anos, estava encantada com as ideias surpreendentes de Vandré.
Naquela tarde, as horas passaram rapidamente.
Vandré é um homem de raciocínio rápido, articula seus pensamentos de maneira espetaculosa, com muita coerência. Eu conhecia sua obra, é riquíssima, reveladora, mas se apresentava conflitante com suas falas atuais.
Existiam muitos livros e caixas espalhadas pelo apartamento, não tinha energia elétrica, o local era escuro mesmo durante o dia.
Vandré temia um curto-circuito na fiação daquele lugar, por isso havia desligado o fusível. Na cozinha de sua casa, ele abrasava a tripa cheia de carne bovina numa gambiarra que ele mesmo havia criado, uma espécie de resistência que funcionava a pilha. Colocava o embutido nas extremidades desse pequeno aparelho e o aquecia.
Ofereceu-me uma, agradeci, não tinha fome, pelo menos, não essa fome de comida, tinha um apetite voraz, mas pelas histórias que saíam de sua boca.
Na parede, um cartaz; era uma imagem desbotada de Vandré; no retrato, um jovem participando dos grandes festivais.
Na ocasião do nosso encontro, ele tinha aproximadamente sessenta anos, e perguntou se eu julgava que uma tinta no cabelo pudesse fazê-lo ficar parecido com o retrato estampado da parede.
Respondi que a tinta poderia, sim, remoçar, mas que achava desnecessário, que seus cabelos brancos eram bonitos e revelavam um novo momento de sua vida. Nunca achei bonita tinta em cabelos masculinos.
Em outra parede do corredor, um mapa-múndi invertido de propósito, não demorei a perguntar o motivo, a resposta de Vandré veio em forma de aula, me apresentou uma nova concepção de espaço e até desenhou suas falas.
Segurando uma laranja, apresentou suas teorias. Em alguns momentos, se parecia com um cartógrafo, rabiscando em sua mente suas ideias sobre espaço e a posição da esfera global. Nós nos despedimos e combinamos de falar mais sobre a ideia de realizarmos um grande concerto.
No dia seguinte, partilhei com outro artista as criações brilhantes de Vandré, ainda digeria a nossa conversa fomentadora. Entretanto, fui profundamente desencorajada, pois, para mentes mais tradicionais, tudo aquilo era louco e inconcebível.
Dias depois, Vandré ligou, queria um novo encontro, mas acabei desistindo da parceria. Perdemos contato, porém continuo apreciando a obra desse artista. Considero-o uma das mentes mais criativas da produção cultural brasileira. Apesar de sua esquisitice, é inegável que se trata de um dos maiores nomes da MPB.
Vandré nunca deixou de ser um exilado!


Gravidez revelada

Durante alguns anos, trabalhei para uma empresa especializada em grandes eventos, a maioria dos projetos eram concertos internacionais, um deles aconteceu no Parque da Independência, em abril de 2009, uma apresentação do tenor Andrea Bocelli.
Lembro-me bem dessa produção, era um evento com possibilidades gigantescas de aglomerações. Receber um público maior que a capacidade do local era algo previsto pela equipe, todos já trabalhavam com essa possibilidade.
Já existia uma estratégia para mitigar os efeitos dessa possível super aglomeração, lembro-me de parte da equipe tentando conter o público que queria, a todo custo, invadir o espaço que já se encontrava lotado.
Nesse dia, uma amiga querida e supertalentosa levou algumas bengaladas de uma senhora idosa que insistia em entrar no parque.
Era uma confusão incontrolável, tentávamos manter o plano, mas éramos poucos; além disso, o concerto foi gratuito e ainda contaria com as participações de Ivete Sangalo e Toquinho. Estávamos todos muito tensos!
Durante o evento, já com o concerto iniciado, tínhamos a mesma quantidade de pessoas dentro e fora do parque, todas as ruas do entorno foram bloqueadas.
Dias antes, por orientação da Polícia Militar, nossa equipe coordenou a instalação de chapas de metal nas grades de todo o perímetro do parque. Essa instrução da PM tinha a intenção de impedir a venda de bebidas alcoólicas dentro das áreas internas do Museu.
O público, descontente, usou as placas como ferramenta de protesto. Batiam fortemente nessas estruturas. O som era percebido por todos, inclusive pelos artistas. Tudo que era possível fazer foi feito: intermináveis reuniões com PM, GCM, empresa de segurança, maaas... era evidente que encontraríamos grandes dificuldades para conter o público.
Dias antes, o trabalho foi insano, uma amiga e parceira de muitos projetos, Mariana, era responsável pela contratação da orquestra e coral que acompanharia o tenor no palco. Trabalhávamos juntas e acompanhei de perto o desenrolar dessa produção.
Estávamos há dias numa correria insana, sem dormir ou se alimentar direito. Na véspera, ainda correndo para resolver as últimas pendências, senti uma queda de pressão, dessas fortes que te arrastam para o hospital, Mariana me socorreu, eu estava com o nível glicêmico muito baixo, em resumo, "faltava combustível".
Naquele dia, véspera do concerto, Mariana avisou ao restante da equipe que talvez eu não pudesse estar presente no evento. Imagina se eu faltaria? Jamais! Minha coordenadora, pela manhã, durante a reunião geral de produção, anunciou que provavelmente eu não participaria, pois tinha passado mal no dia anterior.
Minutos depois, começou a falar da participação da Ivete Sangalo que estava gestante e não tinha anunciado na mídia, minha coordenadora também falou da estratégia de produção para a chegada da artista ao local. Como também sou Ivete, muitos que estavam ali fizeram gigantesca confusão, pensaram que a grávida da história era eu, vinculando a minha queda de pressão a uma possível gravidez.
Lembro de chegar aos bastidores do evento, alguns minutos após o término dessa reunião, e receber muitos cumprimentos pela então gravidez, não adiantando dizer que não estava grávida. Naquele dia, o músico Toquinho, sem saber dos segredos da artista, anunciou no palco a gravidez de Ivete, não a minha, mas a da Sangalo.


Inezita e o assalto

Produzi um dos últimos shows da dupla caipira Pena Branca e Xavantinho; era um pequeno festival que reunia no mesmo palco, além do duo, a cantora Inezita Barroso e o compositor Renato Teixeira.
Foram três dias com ingressos esgotados, salas lotadas de pessoas idosas, coisa bonita de se ver. Lembro-me de pessoas cantando emocionadas, eram clamores, lamentações, quase uma prece.
Xavantinho, já muito debilitado, tinha dificuldades para conversar, mas quando cantava soltava a voz de forma espetaculosa. Era realmente impressionante vê-lo cantar, ele levantava a cabeça e, com os olhos fechados em direção aos céus, se apresentava único. Numa rara e bela cena, interpretava clássicos da cultura popular.
Naquele dia, Inezita foi assaltada no caminho de casa. O motorista, um amigo, contou mais tarde que ela se manteve serena enquanto ele tremia como vara verde. Em pânico, meu amigo procurava tranquilizar os criminosos, pedia calma! Julgo que os bandidos reconheceram a grande artista sentada no banco da frente, seguiram.
Inezita, numa demonstração de equilíbrio que só as grandes divas possuem, simplesmente disse “vamos tomar um café".


Luxo e breguice

Há alguns anos, fui responsável pela produção de um concerto. Até aí, tudo bem, entretanto esse evento seria um grande desafio, já que aconteceria no templo da cafonice. O local, a finada loja que mais se parecia com um shopping, comercializava produtos de alto luxo.
Vendia de tudo, desde relógios de cem mil dólares até aeronaves, o público era formado por estrambóticas madames, que se vestiam com alegorias, e suas colônias quase sempre sentidas a quilômetros de distância.
Usavam joias por todo o corpo, com anéis em todos os dedos das mãos, além de cílios e gigantes unhas postiças. Gente avarenta, que gasta mais de duzentos mil dólares com uma bolsa Louis Vuitton.
Essa produção foi realmente desafiadora. Semanas antes da data do evento, fui para uma visita técnica. Chegando ao local, fui impedida de entrar, meu carro não se parecia com os demais da fila, certamente o valor total do meu veículo era inferior ao retrovisor daqueles carrões.
Mesmo assim, me mantive firme na fila, entreguei meu cartão de visita, informei que tinha uma reunião com a profissional de marketing e eventos, fui orientada a estacionar na rua, afinal, ali eu teria um custo muito alto com o estacionamento. Enfim, esse seria somente o primeiro de muitos desafios, entretanto, um jovem se aproximou e educadamente disse que levaria meu carro. Fiquei surpresa, percebi que ali até os manobristas se dividiam em dois grupos, os que sabiam que eram meros serviçais e os bajuladores.
O local era famoso por ostentar dinheiro, luxo e mulheres; percebi alguns homens ludibriando garotas, era nítido. Os clientes não eram atendidos por pessoas comuns e sim por jovens frívolas e ingênuas, muitas delas de famílias tradicionais da capital paulista. Meninas vazias de dar dó...
Entrando no local, nitidamente me divergia daquelas pessoas, estava de tênis e calça jeans, enquanto a maioria estava de salto alto, parecendo se dirigir a um evento solene; me mantive obstinada, procurei a profissional.
Fui recebida por uma garota, não tinha mais que vinte anos, seu nome podia ser empáfia, um ser imaturo e esnobe que, antes do cumprimento, me olhou dos pés à cabeça, e seguiu. Ela resolveu me apresentar o local onde seria montada a estrutura de palco. O lugar sem acessibilidade já se mostrava de difícil execução, já que teríamos que transportar um piano de meia cauda ao salão onde aconteceria o espetáculo, sem elevador de carga e com vários degraus.
Na véspera do evento, quatro rapazes carregaram aquele piano, seus rostos vermelhos pareciam que iam explodir a qualquer momento, mas, no final, conseguiram. Trabalhar com eventos também pode ser bastante insalubre.
Continuei observando o local, tentando buscar soluções para a execução daquele evento, nos deslocamos para um pequeno café. Paramos no bistrô, a jovem me ofereceu uma bebida, agradeci e aceitei, percebi que o local tinha alguns copos de cristal e umas garrafas de água da marca San Pellegrino. Quando dei o primeiro gole, senti um enorme enjoo, o copo era fétido. Não devia ser lavado há meses. Disfarcei e afastei o copo com a água malcheirosa. A pior água que bebi em toda a minha vida!
Mas o pior ainda estava por vir, esse realmente era o maior de todos os desafios, estava diante de pessoas racistas, como lidar com aquela situação?
O evento contava com uma orquestra de jovens da periferia de São Paulo, e aquela profissional estava preocupada com os garotos pobres circulando dentro do mercado de luxo, disse que temia que roubassem algo. Naquele momento, fui acometida por um sentimento de grande aversão, fiquei por alguns minutos sem chão e apática, procurava a resposta para a fala discriminatória e criminosa; pouco vinha à minha mente, mas, como precisava contornar a situação, resolvi arriscar.
Tive uma excelente ideia, eu sabia que ela validaria qualquer proposta sugerida, então, indiquei que montássemos uma espécie de camarim coletivo no terraço, com um serviço de buffet para atender exclusivamente os jovens e a equipe operacional e técnica.
Posso garantir, nunca montei uma lista de catering para camarins com tanto gosto. Abusei, exagerei, extrapolei, pedi de tudo um pouco, do bom e do melhor, solicitei muitos profissionais para atendê-los. Penso que aqueles garotos nunca foram tão adulados, era o mínimo que eu poderia fazer por eles. O concerto foi realizado, eles estavam felizes, eu me senti recompensada.
Nunca mais coloquei os pés naquele lugar asqueroso. Pouco tempo depois, os proprietários da loja foram condenados, acusados de formação de quadrilha, falsidade ideológica e descaminho.
Os meninos da orquestra são grandes artistas premiados!


Abortando voo

Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e Dominguinhos, sabe o que eles têm em comum?
Todos sofriam de um tipo de transtorno de ansiedade conhecido como aerofobia ou, popularmente, o comum medo de voar.
Nos meus vinte e cinco anos como produtora cultural deparei-me com incontáveis embaraços, muitas vezes com distantes ou inviáveis soluções, dificuldades, muitos impasses, durante a produção de um grande evento, precisei alterar um cronograma para manter o artista Dominguinhos em um significativo festival multicultural.
Ele simplesmente não conseguiria assumir o compromisso, já que, no período do evento, estaria em turnê pelo Nordeste e suas viagens eram feitas todas por terra. Não que não tenha andado de avião, voou muito quando jovem, mas depois foi adquirindo um medo terrível e incontrolável.
Um dia conversamos sobre esse tipo de pânico, eu disse que o entendia, também sofria do mal, perturbação que constantemente também me consumia, ele sorriu, agradeceu e se desculpou, não queria ter dado trabalho.
Quem conheceu Dominguinhos sabe o quanto ele era gentil e doce, nunca reclamava de nada, tudo estava sempre perfeito, seja no palco ou fora dele, era sempre alguém disposto, alegre, mas entrar em uma aeronave o incomodava, era algo que o deixava profundamente aborrecido.
Outro gênio que sempre detestou voar foi Ariano Suassuna; para ele, só existiam dois cenários: ou a viagem seria entediante, ou catastrófica.
Durante um voo a comissária perguntou se ele estava com falta de ar, já que respirava profundamente e transpirava muito, ele respondeu que o problema era escassez de terra, não de ar!
Em outra ocasião um amigo tentou confortá-lo, disse que ninguém morria antes da hora, ele então questionou:
— E se for a hora do piloto?
Ariano, esse escritor genial, era assim, sempre contava com bom humor suas memórias aterrorizantes. O grande contador de histórias disse que sua fobia o havia impedido de viajar para locais que gostaria de ter conhecido, mas seu medo era maior.
Já Fernando Sabino dizia que os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm.
Pois, bem! Eu não finjo que não tenho, ao contrário, admito que tenho pavor. Como é necessário voar, tento não pensar ou focar na ação, simplesmente vou.
Meu medo tem uma origem. Numa decolagem, a aeronave, prestes a subir, abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.
O mais assustador não foi o ato de frear subitamente, ou os gritos, ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador é saber que, dentro dos aviões, são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.


Estrada arriscada

Nas estradas brasileiras, as madrugadas são incertas, pois os animais selvagens e aqueles das pastagens sempre tentam atravessar as rodovias. Na louca jornada, eu nunca dormia, preferia fazer companhia aos motoristas, temendo que adormecessem, isso porque muitas vezes era difícil manter os olhos abertos, o breu e a mesma paisagem acabam por vencer.
Nessas horas, você deve abrir o vidro e deixar o vento gélido entrar, congelar sua face, um corpo aquecido busca o sono e adormece, já o desconforto do frio te impede de relaxar e dormir. O único problema é quando os demais passageiros acordam com a ventania, vira uma confusão danada.


De Cunha a Paraty

Para morrer do coração!
Durante uma temporada musical, tive que transportar cargas de equipamento para um evento que aconteceria em uma estância caiçara, mas, para isso, precisava sair de um pequeno vilarejo encravado na serra e buscar o melhor caminho para chegar ao litoral do Rio de Janeiro. O destino? Paraty.
Para quem não conhece, a estrada que corta a Serra da Bocaina é uma das mais belas do Brasil, mas também uma das mais perigosas, com curvas acentuadas e barranceiras sem proteção.
Em alguns trechos, a estrada se afunila e os automóveis realizam uma espécie de revezamento, carro desce, veículo sobe, um comboio sem fim.
Se estiver chovendo, reze muito; se chegar neblina, peça proteção para todos os santos, não arrisque pedir apenas para um, vai que ele esteja ocupado...


Retirante
Das bandas do norte,
da terra vermelha
Margaridas e Joaquins morrem jovens,
corpos findam
como a desguarnecida lavoura,
terra de seres desprezados,
cacimbas vazias,
gente com olhos de fome
e escassa colheita
A estiagem é severa
e, ano após ano,
intensas lamúrias
Terra rachada,
terra estreita,
desafortunado
pássaro do livramento
de muitos lamentos
em sua triste melodia
Noites dolorosas
de nuvens tempestuosas
que anunciam um cruciante tempo,
tempo da desventura,
tempo da carência,
gastura, contingência
Nas bandas de lá,
amplidão celeste
Não tem chuva,
nem um pranto,
triste seca,
crianças com fome
e o corpo que some
São bravos,
são guerreiros
os sertanejos,
lágrimas secam no rosto do ancião,
sertão nordestino,
na festa do padroeiro
procura acalmar o coração,
triste destino
Na procissão um miúdo
corpo pagão,
mirrado falecido
passa em vão
Homem cristão
e as velhas com velas nas mãos,
sem lágrimas
não banham o chão
Patativa rasante,
triste pássaro do sertão,
cantoria estrondosa
E migra,
partiste,
fugiste.
Tanta dor
e um aperto no coração
Mais uma seca,
mais um tempo de privação,
lavadeiras rezam a Ave-Maria
e as mães cantam suas queixas nas romarias
São Severinos, são Marias
Lágrimas do silêncio,
água turva,
terrível prenúncio
Vai!
Busca teu destino!
Como os pássaros migratórios,
voa...
Busca outras terras!
Quiçá uma casa estrangeira,
uma vida ligeira, e, na triste lida
se ocupam de sol,
vento e céu,
mulheres de fé,
pedem a Deus
ajoelhadas com seus terços e véus,
mas a chuva não vem
Couro queimado,
só fogaréu,
mísera lamentação,
que cena cruel...
A seca mata o bicho, mata o homem
Naquelas bandas não tem Noel.


Prece
Penso nas dores do mundo
e nos algozes sem alma,
penso no Cristo torturado,
no sofrimento de seres mutilados
Penso nos famintos isolados
em campos de refugiados,
penso nas crianças de corações dilacerados
e nos homens atormentados
Penso no silêncio dos violentados,
seres desesperados,
penso em antigas civilizações,
nas diuturnas lamentações
e em velhas reinvindicações
Penso nas mentes doentes
e nas mães impotentes
e nos anônimos heróis resistentes
Que o medo não me afaste dos meus sonhos.
Que todas essas dores não me tirem a esperança.
Que a frieza dos homens não me cegue.
Que a hipocrisia não me afaste do justo.
Que os temores que sinto não me impeçam de caminhar.



É cansativo demais folhear
cada pedaço de vida perdida,
não quero essa dor!
Imperantes sentimentos sobrevivem,
essenciais,
são como o ar que respiro,
como a água que mata minha sede:
imperceptível...
Mora dentro de mim!


Virgínia
Divino agrado com seus terços sagrados.
Velha rezadeira,
também era santeira,
cantava suas dores,
alegrias e glórias,
lâmias de gestos puros,
memórias,
fé e alegria.
Era protetora,
sábia guerreira,
maga de bom coração,
afetuosas ações,
emoção e doação.
Apreciava a beleza das procissões,
oração que abraça,
a perseverança e a graça,
criava suas poções no rio que purifica...
São Margaridas, Virgínias
e muitas Marias,
com seus dons naturais,
suas curas divinas...
Mulheres de Minas
Curam as dores da alma,
as dores do corpo
e toda a carência,
são protetoras das matas,
das florestas,
das plantas,
rezam pela colheita,
e lindos oratórios enfeitam,
com seus vestidos de chita,
altares de santos
e violas de fita...
Encontram outras vias,
declamam suas liturgias,
são vozes,
entidades,
seres sagrados...
Manifestam bons presságios,
se banham nas águas dos rios,
jogam seus búzios,
são mulheres benditas
e também acuadas,
são as escolhidas...
E sofrem e lutam
e choram
e cuidam,
rezam para a Virgem
e para os deuses da natureza...
Estão espalhadas por todo o país,
criam suas alfaias,
oferendas nas praias,
rezam para o povo abandonado,
tiram o azar,
o olho gordo,
o mau-olhado,
curam a inveja,
o quebranto,
o cobreiro
e a brotoeja...
Seus rituais são de amor,
de fé e de cura,
são símbolos da nossa mistura,
da nossa cultura,
são curandeiras,
benzedeiras,
são parteiras,
são bruxas,
são feiticeiras,
são mulheres adoradas,
empoderadas,
cultuam memórias sagradas!
Possuem energias curativas,
rezas para germinar,
são emotivas...
Queimam suas ervas para a tempestade afastar!
Cura pela intercessão,
purificações,
superações,
aflições,
nobres atribuições...
São práticas de amor
São lavadeiras,
rezadeiras,
raizeiras, parteiras,
com seus encantos e cantos,
contentamento e muitos ensinamentos...
Vai pelejando,
curando, plantando
e, pelas suas mãos,
uma nova geração!
E mesmo iluminando caminhos,
ainda são perseguidas,
punidas ou impedidas,
seja na inquisição,
na anulação
ou na extinção,
seus valores são questionados,
seus saberes eliminados.


Sabiá-laranjeira
Quero lhe contar o que vivi,
sou viajante, céus cobri,
fui exímia cantora, sou Colibri,
com meu ínfimo corpo, canto pra ti.
Cruzei os céus, ouvi um Curió,
conheci seus anseios,
és rápido demais,
és ligeiro,
mora aqui bem perto e no interior.
É um afamado fingidor,
um pássaro imitador de canto encenado,
atua como ator.
Nunca acreditei em suas doces palavras.
Também conheci o lindo passaredo,
o Trinca-ferro,
vivente da capoeira,
viajante sem paradeiro,
roncador vigoroso, vive nas clareiras.
Tem o Papa-capim,
que voa como anjo,
como um querubim.
Tem o Canário-da-terra,
que canta suas penas,
suas guerras.
Mas aprecio mesmo é o formoso Sabiá-laranjeira,
meu melhor amigo,
meu companheiro,
estimo o seu canto,
meu predileto,
visita as beiras
Vem me ver de tempos em tempos.
Espero ansiosa seu regresso…
Ele se hospeda em apartamentos de concreto,
notívago solitário canta nas madrugadas,
seu canto faceiro não me perturba,
és para mim um lindo boêmio.
Nas noites paulistanas,
insanos querem matá-lo,
digo a ele para se cuidar.
É meu melhor amigo,
meu único amor…
Meu bem, compreendo porque não dormiste,
tens cantos da sobrevivência,
com seus sons sublimes,
canta seus fantásticos delírios.
Cantigas que não são para mim,
são para ela!
Acompanho sua insônia,
pássaro cantador,
volte,
visite minha janela!
Te espero em uma casa enfeitada,
com beijos de mel
e um jarro de flores amarelas.
Conheço-te,
sei que és perseguido,
mal-apreciado,
incompreendido.
Quando sentires o risco,
foge para longe,
livra-te dos ouvidos incomodados.
E quando puder,
venha me ver,
minhas portas estarão sempre abertas!
Meu amor,
voa observando a miragem,
flutua com seu voo rasante
e dorme com as estrelas
onde me encontrarás.


Ouro Negro
Um farol na escuridão e
nenhuma luz no fim do túnel.
O frágil piscar anuncia um novo tempo,
tempo de lutar.
Inútil é o papel da desolada embarcação.
Previ o flagelo!
Castigado oceano,
ano após ano,
como és esfacelado
pelo ser humano.
Não serviu o bailado singelo,
nas águas do Norte
só existe a morte.
Tolo Ouro Negro.
Terrível pesadelo!
As velas dobradas dos mastros,
fatigadas,
presas,
imobilizadas.
Não tem peixe,
nem camarão,
só existe o reflexo da ganância,
o lucro, a destruição.
Hoje, não tem pesca,
não tem siri
ou ostra fresca...
Hoje, não tem festa.
Na praia manchada de Ouro Negro,
não tem oferenda para Iemanjá,
só tem desassossego
e político dizendo que nada é pra já...
Nada pode nos livrar
do triste derramamento...
Apuro as perdas,
os danos,
as sequelas,
minhas lágrimas de sal
banham minha face apática
e me vem um triste pensamento
e sob um céu de estrelas
penso nas mazelas.
Olho minhas mãos calejadas de pescador,
hoje vazias,
não tocam o instrumento,
hoje, não tem música no acordeon,
o tocador não encontra o tom,
hoje, só existe um canto emotivo,
desolador...
No pequeno refúgio paradisíaco,
recordo um tempo que foi bom.


Sertão
Terra amarela
rosto craquelado
e as súplicas dela,
bélica fome,
rosto suado,
ira,
mazelas,
absoluta
e bruta labuta
que consome,
some...
Flagelo,
castigado sertão,
o gado morre,
ninguém socorre...
Nos pés,
rachaduras,
duras penas,
áreas anecúmenas,
tristes cenas,
tristes partidas
encena,
idas para o sul,
clareia novo dia,
não existe boa prosa,
nem poesia,
tenebrosa seca
que cerca...
Lugar de contrastes,
rumastes para outras terras,
hastes da cruz,
outras eras,
um triste adeus,
contratempos,
um tempo perdido...
Instinto que salva,
distinto faminto,
corpo extinto,
vinho tinto,
branco vinho,
campo branco,
caatinga...
Destino,
triste sina,
és migratória,
ave de rapina...
Astro da manhã
e a festa pagã,
o braseiro,
primeiras centelhas,
telhas de brilho celestial...
Jasmim das restingas
e na caatinga,
o triste acaso,
caso que penaliza,
coisa antiga,
caso que castiga...
Nenhuma gota d’água,
deságua pranto,
desencanto,
olhos de espanto,
que desgraça
e na raça
segue semeando,
olhando para o infinito
e esperando que Deus
mande a chuva
e louva aos céus que
preencha as cacimbas vazias,
cercanias da fome...
Lume,
espinhos,
clarão,
descaminhos,
meu sertão...
Mistérios da remissão,
redenção,
clamor,
perdão,
lamentação,
sem ação é feito chispa,
que despista,
foge da morte...
Seca monocromática,
sina dramática,
gente apática,
criança raquítica
Brasil sem fim...
Norte quente...
Ardor,
povo sofredor,
a dor que feri,
meu sertão,
meu chão, meu Cariri...


Apesar deles!
Neste cenário de distopia,
a tristeza tomou conta,
isso assusta...
Temos medo do desconhecido,
sofremos pelos corpos afastados
e o tempo parece sem fim,
tempo que se arrasta.
Eles mentiram, pediram calma,
disseram que seria apenas quarenta dias,
não foram e,
no fundo, ninguém sabia.
Hoje, me pergunto,
será que vivemos uma antiutopia?
Vejo corações aflitos,
olhos de espanto,
tanta agonia!
E tem a destruição dos rios,
as florestas no chão,
o veneno pulverizado
e o capitalismo desenfreado.
O que faremos
com a nossa indignação?
O que faremos
com aqueles que tratam
seres humanos como cobaias?
E tem a fome,
a solidão
e o ataque contra a democracia,
tem o feminicídio
e toda essa misoginia.
E tem essa tal meritocracia,
pura hipocrisia!
E tem aqueles que defendem a eugenia,
tanto horror,
nada nos salvará,
não existem outras vias.
Não, minha cara poeta!
Basta!
Levante a cabeça!
Ouça essa voz interior,
a beleza sempre vencerá!
Vamos tentar de um novo jeito?
Com um olhar de quem acredita?
Sim, existem outras vias!
A empatia nos salvará
e a verdade nos libertará.
Pensem naqueles
que defendem a igualdade,
a irmandade,
a solidariedade,
puro encantamento!
E tem a bela rebeldia
daqueles que mesmo oprimidos
nunca se calam.
E tem aqueles que defendem a democracia,
a alegria, a mesa farta e a boa companhia.
E tem os anjos da enfermaria
e a semente que cresce da agroecologia.
E tem a oração
e a fé na Virgem Maria!
Sim, eles mentiram,
pediram calma,
disseram que seria apenas quarenta dias.
Neste cenário de pandemia,
ficou a tristeza,
a aversão àqueles que negaram a ciência
e a saudade
daqueles que partiram.
Hoje, apesar deles,
não mais vivemos a intensa asfixia,
a violenta agonia,
a febre e a paralisia!
Amanhã, apesar deles,
a ciência,
a educação
e a humanidade vencerão.
Um dia, os corpos novamente
poderão se aproximar
e comemorarão em festa,
dança e harmonia.
Sorria!
Ainda existe magia,
poesia,
beleza e fantasia,
juntos comporemos uma nova melodia,
cantaremos em vigília
e isso não é utopia, é esperança,
fé e alegria.
Acredite!
Apesar deles, amanhã será um novo dia.


Festa
Estava ao lado do braseiro,
na festa do padroeiro,
e você apareceu,
caminhando pela estrada,
surgindo na escuridão
em noite de São João.
Sangue
Sou luta, trabalho,
resistência,
luto contra a perseguição,
sou Maria,
sou raizeira,
sou cabocla do sertão.


Imortais
A sucessiva perseguição colonial,
nada mudou na exaustiva luta existencial,
a vida ingrata,
a labuta que maltrata
e a terrível certeza do vindouro mortal.


Condição humana
Conto os anos da imprecisa casualidade
e penso na mísera condição humana.
Maldigo esse tempo perverso,
tempo de todas as idades,
tempo de escassez de afetos,
tempo do acúmulo de atribuições,
tempo daqueles que não tem tempo.


Espelho
Na minha frenética vida,
muitas vezes a taquicardia
me acompanha,
está comigo
nos pesadelos da vida cotidiana,
nos fatos penosos da violência diária,
no terror da fome,
na miséria,
na política aniquiladora
e autoritária.
Tudo isso me aflige bem mais
que as tramas fictícias,
criadas em minha mente.
Estão nas cenas reais,
na reportagem
quase sempre sensacionalista
do antiquado noticiário,
naquilo que me tira a paz,
que guardo em meu diário.


Verrugas
Ainda menina
aprendi a contar estrelas cadentes,
cada declínio luminoso
era uma súplica diferente,
preces para trazer a chuva,
a sorte
e um amor; 
muitas orações
para matar a fome
e curar tanta dor.


Feridas abertas
Estou impedida,
banida,
já não posso sonhar.
Tenho saudades de
tempos atrás.
És sábio!
E me ensinas
que é o tempo de temer
e que as feridas abertas
da América Latina,
ainda não vão fechar,
ainda não vão cicatrizar,
que temos muito a perder,
muito a lutar,
tanto a aprender.
Não se deixar abater.
Também não tenho mais nada:  
perdi minha caneta,
o bloco
e anoto pensamentos
em pedaços de papel,
soltos e livres.


Eterna saudade
Meu Jequitinhonha
Nas garrafadas alecrim,
cidreira e hortelã
Mãos de rezadeira anciã
Sabedoria guardiã
No anoitecer
Um céu a queimar
No amanhecer
A colheita e o capinar
Nas panelas
Quitutes para adoçar
No tacho, arroz com pequi,
andu, canjiquinha e paçoca
Vitaminas naturais
Minha terra
Minha Minas Gerais


Suores noturnos
A intensidade e a dualidade
sempre estiveram presentes 
em meus mais primitivos tormentos noturnos,
parecidos com um enredo assustador
de um filme de Alfred Hitchcock.
Nessas ocasiões,
queria conhecer o final
e me surpreender,
afinal, nem sempre o roteiro é tão bom assim.
O terrível é não viver o final,
sendo despertado no meio,
acordado pelo telefone,
pela campainha
ou pelo miado do meu gato...


A boa e velha esperança
A esperança nunca envelhece,
está presente em cada ação,
na lida do trabalhador,
no coração,
nas mentes e na oração.
Por mais que algumas pessoas tentem,
ela nunca desaparecerá,
ela é forte e se faz presente,
como um oceano, potente.
Está na perseverança,
nos homens de fé,
na justiça e na graça;
aconchego, alento,
maré mansa.
Existe naquele que nunca descansa,
que teima,
que nunca se curva,
está em toda crença.
Está no horizonte,
no barco à espera do peixe,
está em quem nunca se rende,
está na atitude e no tentar.
Está no punho cerrado erguido no ar.


Pornografia
Imprópria é a moralidade que persegue.
Inoportuna é a miséria que condena.
Inadequada é a fome que mata.
Injusta é a renda que frustra...
Inconveniente é o sol queimando
o rosto do lavrador
a desfalecer
sobre o entardecer.
Inaceitável é o mísero salário
e o toque alarmante do despertador.
Descabida é a exaustiva lida,
esta vida,
esta noite gélida,
a massa falida!
Ineficaz é lutar e nunca vencer,
é sonhar
e não realizar.
Inútil é o coração que aspira um amor,
mas que só guarda dor.


Derramamento
O fato, um ato,
o trato.
Um marujo que espera
a tempestade passar.
A embarcação
vazia,
a mancha de óleo,
um mastro dobrado.
O contrato
que vale mais
que um aperto.
As mãos
calejadas,
o remo que dorme,
o verde que some,
o Ouro Negro.


Esperançar
Ajoelhada, reza uma prece,
nas mãos um relicário,
segura firme o rosário,
cobre-lhe com um véu a gélida face.
Na garganta: um grito,
no coração: a lembrança,
desalento.
No altar:
uma lança que fere o peito.
Reúne tudo em si.
No quarto:
imagens medievais.
Lábios cerrados,
templo sagrado,
antigas catedrais.
Na parede: algo que prende
uma rede.
Lembra da dor
que lhe rasga como parto,
da sede que arruga a pele,
do devaneio pecador.
Não encontra a paz,
o remorso lhe persegue
como assombração,
se cansa cada dia mais...
Espera a penitência,
o perdão,
vive a descrença,
a solidão.
Pelo milagre espera,
tenta dominar as feras.
No rosto, cada dia mais pálido,
ainda mora a esperança.


Nada mudou
O martírio que existia,
ainda persiste dentro de mim;
no platô,
o sacrifício em vão,
imolação sem anistia.
Tolice imaginar
que existe perdão;
nada é apagado,
nada é esquecido.
Dívida antiga com o povo do sertão.
Não há perdão!
Na pedra,
o sangue escorrendo do altar
ainda mancha esse chão.


Sono
Meus pesadelos 
são quase sempre
atormentadores
e confusos,
são sobre o pior
que a humanidade criou,
sobre abusos
e os intrusos
que insistem em nos roubar a paz.
Alguns se parecem
com arte abstrata,
sobre o andar no escuro,
sobre o pulsar frenético,
sobre o pesar,
o velar
e o despertar quase sem ar…
Também se parecem
com uma obra inspirada
no universo kafkiano
ou em um som de piano de uma nota só.


Memórias do Rio de Janeiro
Entre as páginas
do velho diário,
um agrado,
algumas pétalas,
um poema de amor
e no desgastado cartão postal,
memórias do Rio de Janeiro.
Desfruto deste ensaio
que é a vida,
desta loucura destemperada,
das incertezas
que me perseguem
e que me deixam assim,
estagnada diante do perigo.


Súplicas no coração do Brasil
Da destruição a reconstrução,
do campo vazio,
a algo que se construa,
tudo está no chão.
Ouço os gemidos
do velho assoalho.
Braseiro no coração do Brasil,
labaredas de Dante.
Encontro nas ruínas uma foto,
uma dedicatória tua.
O fogo varreu a cercania,
entre as páginas do livro sagrado
encontro vestígios,
são poemas da criação...
O que me resta
é ler os mitos da Suméria,
tempo em que os deuses
e humanos habitavam a Terra.
Sigo lendo sobre os conflitos
de outras eras;
nada mudou,
também estou em guerra!


Face
Olho no espelho
e vejo um rosto apavorado.
Tenho olhos miúdos,
não tenho esses olhos arregalados,
aterrorizados pelos
pesadelos perturbadores,
sobre perigos escondidos
em acanhados corredores,
sonhos aflitivos,
corrosivos.


Vento
Vivo na nevoenta cidade,
peço ao vento
para varrer esta saudade,
peço aos céus que se abram,
me desviando da tristeza,
do caminho da infelicidade,
levando essa dor
causada pela fúria
e pela maldade.


Escrituras
Entre as páginas
do livro sagrado,
imagens desvanecidas
de minha avó,
a certeza de onde venho
e quem sou...
Sempre existe 
algo de bom, 
algo que tempera o pranto, 
algo bom
que acalma o coração.


Vento Norte
Vento calmo ou euforia,
vento sopro, ventania...
Tempo antigo,
meu melhor amigo,
quero novamente poder sonhar,
sentir o vento,
ver o mar e viajar...
Vento forte,
traz de volta o meu amor,
que eu te entrego o que tenho de melhor...
Vento brisa, calmaria,
transformo versos,
crio melodias...
Vento calmo,
clareira um novo dia.
Não quero mais olhos de espanto,
eu que amei tanto!
Leva embora minhas cartas,
minhas memórias,
leva para longe esse pranto!
Vento livre, poesia,
me traz inspiração,
sou feito ventania,
cante uma canção tantas vezes cantada,
tantas vezes dada,
esqueça a razão...
Eu canto para você numa noite de luau,
tudo que é bonito e natural.
Leva para longe meu pranto,
eu que amei tanto...
Quero ter o direito de sonhar,
de sentir o vento,
ver o mar e viajar...
Vento breve, fresca brisa,
vento leve que me inspira
a escrever minhas memórias...
E (re)escrevo antigas histórias para você,
você que não está aqui,
você que é tão bonito,
que é pura formosura,
que aquece a noite fria,
ilumina a noite escura!
Repito contos de histórias não vividas...
Vida leve,
esqueça tudo que não serve,
vento suave,
tempo antigo,
meu melhor amigo.


Manipulados
Ah! Meus notáveis seguidores...
Vocês são imprescindíveis!
Este discurso é para vocês que me chamam de mito
que me idolatram
e para todos que se castram,
continuem defendendo os indefensíveis
e seus ritos.
Meus leais inimigos da classe trabalhadora,
meus honrados bajuladores iletrados,
adestrados,
armados desequilibrados,
vocês são indispensáveis
para uma política controladora.
Meu caro amigo,
quer se informar?
Acesse o “zap”!
Esqueçam os livros,
ler é um desvio subversivo,
queimem todos os livros!
Ah! Mais tarde, assista um “stand-up”.
 
Bagdad Café
Percorri cinco chapadas,
conheci suas belezas,
atravessei fronteiras,
busquei atalhos
e desbravei novos caminhos,
cheguei a aeroportos ínfimos no meio do nada,
lugares inóspitos
como aquela locação do clássico
Bagdad Café.


Morte
Se um dia eu ficar sem norte,
se um dia bater à minha porta a morte,
e sem ar, sem poder respirar,
ela me abraçar,
não fique triste,
não há motivos,
emotivo ficarei de ver-te triste...


Barragens
Casarios
Pedra Menina
Museu da Pessoa
e o toque atormentador da buzina
Minha bendita Nossa Senhora,
as ladeiras de Ouro Preto
estão vazias...
Igrejas douradas
abandonadas...
Morro da Queimada,
terra desolada,
terra vasculhada
De tempos em tempos
uma nova exploração,
como és castigada,
hora ciclo do ouro,
hora mineração
Lugar de contrastes…
No solo:
as crateras profundas
Nas paredes:
a arquitetura barroca
Nas imagens:
a arte talhada
Na cruz:
um tecido roxo
Na sexta-feira:
o silêncio e a penitência
Aqui é Minas Gerais...
Terra de lutas sangrentas,
terra de conflitos de tempos atrás
Terra de Ataíde e Aleijadinho
e de gente que não esquece Brumadinho.
Vagão que me leva
Trem das Gerais
Quatro séculos de história
e o silêncio das catedrais!
 

O silêncio
O silêncio da morte é como faces abatidas,
esmorecidas...
como câmaras mortuárias,
como o silêncio de antigas bibliotecas,
esculturas do sepulcro,
como a quietude das capelas sem foles,
criptas com estátuas estateladas,
pedra branca esculpida de olhar choroso,
como tumbas grandiosas dos faraós,
como cortinas fechadas do proscênio,
como o fim do espetáculo.


Tocante Urutau
Afogo que afunda,
algo que finda...
Para sobreviver, busquei novos pares,
naveguei outros mares,
vibrei distintos ares.
Não consegui encontrar a cura,
largar a loucura, tantos vícios.
E sobre o pano branco,
todas as peças dos búzios,
muitas revelações.
Epifania...
Sou sonhador de velhas utopias...
Juras, injustas promessas, ataduras,
tristes caçadas!
Sangro, sinto, suporto...
Meus olhos cansados, olhos de areia...
Singro no alto-mar,
controlo as velas da embarcação,
uma luz de candeia ilumina a escuridão,
uma infusão de ervas de benzedeira
esquenta o corpo cansado
e no peito todas as guias, minha proteção...
A tempestade chega e no mar revolto
observo um ato de amor, uma mão que salva...
Então recordo os presságios da anciã,
histórias da mandingueira,
velha matreira que movimentou sua manivela,
profetizou a solidão e a fúria dos mares
e decifrou a triste sina na estreita viela
Agora recordo as mensagens do antigo realejo,
tristes prenúncios nos caminhos de águas turbulentas,
lembro das estradas de pedra
e sigo decifrando as adivinhações
daquela mulher misteriosa da deserta colina,
da rua estreita que leva ao antigo farol.
Lembro da luz, clarão de um velho lampião,
uma chama, uma clareia intermitente
e o canto vibrante e choroso
do tocante Urutau...


Viajar
Para viajar, basta existir.
Concordo com essa fala de Fernando Pessoa.
Muitas vezes viajamos na nossa imaginação
ao lermos um bom livro,
ao assistirmos a um filme,
a um espetáculo musical
ou percorrendo céus,
mares e estradas;
seja na ficção
ou no dia a dia da realidade frenética,
sempre estamos viajando.
Viver é caminhar para a maior de todas as viagens!


Esperança
Ela acreditava que tudo era doação,
acreditava com toda certeza
de que a humanidade era generosa
e só enxergava a compaixão
e sua força poderosa
e via tudo com um olhar doce,
olhos de menina,
via em tudo o suave perfume da rosa,
muita beleza,
não existia a ganância
e a pobreza!
Mas ela abriu aquela caixa,
que espantosa desilusão,
que atitude desastrosa,
minha triste Pandora...
Criou tanta confusão,
sua curiosidade tentadora libertou os demônios, foi espectadora!
E viu libertar a crueldade,
tanta maldade,
viu refletida em seus olhos
a destruição, o homem infeliz,
deu asas aos seres vis.
E sentiu uma desesperadora tristeza,
tristeza arrasadora,
e rapidamente fechou aquela arca
e jogou a chave fora,
mas era tarde demais,
seu gesto não impediu a fúria,
as doenças
e as guerras...
E há quem diga que dentro
daquela caixa existe algo que ficou para trás
e que pode trazer a cura,
algo que pode mudar a história,
trazer a alegria
e a glória.
E por mais que a gente sofra
e por mais que existam sombras,
essa cura está guardada
dentro dessa caixa
e pode salvar,
proteger,
libertar,
trazer a paz!
Ela é a beleza
que não viu a liberdade,
é aquela que se transforma a cada dia,
presa dentro de uma enegrecida solitária,
mas que persiste
e insiste em permanecer viva
e que faz com que todos os dias
um pequeno raio de sol
brilhe pelas frestas,
esquentando corações frios...
E são vários os que esperam por ela,
e são vários os que acreditam nela,
ela se chama “esperança”
e ainda existe
e resiste dentro de cada um de nós!


Pense
Pense, companheiro,
você sabe o que produz a riqueza,
a fartura e toda luxúria?
Você precisa entender
que a ganância é autoritária!
É arrogante, tirana,
totalitária, arbitrária!
Você e todos os seus
que vivem pedindo aos céus,
implorando a Deus,
do sertão ao litoral,
do centro e da periferia,
precisam entender...
A migração em busca de comida
não é temporária,
você precisa entender
que essa luta é diária.
Entenda, companheiro...
Durante toda a história,
você foi usado, massacrado,
você é, para eles,
a escória.
Amigo, você precisa entender,
que voltamos ao mapa da fome
e que isso não é falta de sorte,
nem fatalidade
ou coisa do povo do Norte...
Veja, você é só um número "Homem"...
Para eles, você não tem nome,
nem sobrenome!
Você precisa entender
que somos muitos,
estamos em todos os cantos,
no campo e na cidade,
temos todas as idades.
Eles são hipócritas, meritocratas,
escravocratas,
são oportunistas, nepotistas,
são racistas, machistas,
defendem o holocausto nazista,
são a nova eugenia!
Patologia? Não sei...
Pura estupidez!
Precisamos falar sobre distopia
para somente depois acreditar na utopia,
não podemos ignorar
o pior que a humanidade criou,
são múltiplas formas de violência e violações...
E tem o burocrata
que dificulta a vida do trabalhador
e tem o que extorquiu,
surrupiou,
que diz que é produtor,
mas na verdade é o explorador,
grileiro, falsário,
ameaça a floresta
e os povos tradicionais
e destrói o que nos resta!
Tem a bala que corta a carne barata,
tem a infância perdida
e o crescente extermínio infantil...
Para eles,
o que importa é o resultado do projétil e,
no fim das contas,
o que importa é o tamanho da bitola...
Enquanto isso,
eles seguem nos calando,
dando esmolas,
e o que sobra é essa porcaria,
as migalhas, a mixaria,
e eles insistem na tal meritocracia
e fazem suas piadas sem graça
e se reúnem sem máscaras,
se juntam nas praças,
riem de você,
e seguem com essa zombaria,
com essa putaria!
E você continua escravizado,
nada mudou,
a compra não funcionou,
ilusória carta de alforria,
compra de corpos,
comércio de vidas,
bocas reprimidas,
gentes sofridas...
Gente sofrida!
E essa corja de abestalhados
com suas vexatórias
e hilárias teorias
de que você é pobre por merecimento,
fatalidade, circunstância
e tempo...
E vem a milícia
e metralha, aniquila,
dizem que você é um estorvo,
um problema,
adoram um xingamento,
a perseguição
e o cerceamento...
Tentam calar
e eles te convencem
que ser pobre é bom, tá na bíblia
e que pensar diferente é desatino,
é heresia,
caso de bruxaria,
coisa de feitiçaria...
E você segue sua trajetória inglória,
sem alegria,
com apatia e sem fúria,
segue o dia a dia.
Levante, meu caro amigo,
você é a força motriz!
O que impulsiona o país,
o que faz mover a economia,
o dia a dia.
Valorize-se, lute!
Mas os poderosos
querem te convencer do contrário,
insistem em te chamar de otário
e na condução abarrotada,
no sono cansado,
você segue explorado,
ignorado, desanimado
e eles seguem defendendo
que tem que andar armado...
Andar armado?
Eles querem te ver assim...
Incapacitado,
no aglomerado
do trem lotado...
Derrotado, imobilizado.
E vão matando de fome
ou à paisana,
na triste chacina,
e você continua sem acesso à educação,
à medicina
e segue sem a tão sonhada vacina...
Você é um gigante,
é trabalhador,
é resiliente
e eles nunca conseguiriam viver
um dia sequer a tua vida,
vida desprovida...
São covardes, frouxos
e sabem que devem muito,
dívida antiga.
Gente cruel
que derrama pesticida.
Gente estúpida
que mata indígena,
que provoca a maré suicida.
Chuva ácida...
Gente homicida é assim,
são desumanos,
são genocidas!


Mulher campesina⁠
Para todas as mulheres campesinas e para aquelas que lutam por teto, trabalho e terra.
 
 
Ser celestial com curvas representadas pelo famoso arquiteto,
tens garra, disposição e singelos sorrisos.
Mulher és como Terra,
berço acolhedor,
em teu ventre germina o amanhã,
pequenos batimentos acelerados de um coração que tem pressa.
És guerreira,
provedora de tantos afetos.
Sangras todo mês,
és fertilidade,
és o cálice sagrado da vida,
íntimo que gesta o menino Deus
de antigas terras prometidas.
Cultivas o amor,
dos teus dedos arados
brotam pequenas formas de vida,
vidas que adormecem na terra úmida,
solo acariciado pelas mãos calejada de ti, mulher…
Ínfimos grãos…
Terra, substantivo feminino,
também mostra a tua força,
mesmo com toda a destruição,
também regenera,
renasce a cada dia.
Mulher, fonte da vida,
és mãe, amiga,
guerreira, trabalhadora,
és gentileza, afeto,
sustento pelos seios fissurados,
és face marcada, rosto suado.
Luta contra o veneno dos poderosos,
os criminosos que a cercam,
homens inescrupulosos que sufocam,
que tentam calar…
Luta contra a farsa que avança…
És mulher do campo,
mulher de fé e coragem.
És mulher madrugadeira,
quebradeira,
parideira, roceira, raizeira.
E mesmo adoentada pelas nuvens de veneno,
mesmo esgotada,
massacrada, perseguida,
impedida,
segue... e luta... e sofre...
Os filhos procuram outras terras,
os desolados.
São os jovens que partem,
são os desiludidos,
os emancipados…
És mulher de corpo cansado,
partido, ferido.
És de Itacarambi,
és do Baixo Jaguaribe,
de Jaboatão dos Guararapes,
és da Chapada do Apodi.
És do Sul e do Norte,
da caatinga
e do cerrado de terras dominadas.
És do sertão de terras rachadas
e no dia a dia demostra a sua fé.
E não se dobra...
És poderosa mulher!
Tens o poder da transformação.
Como as Deusas de antigas mitologias,
és sábia, dedicada,
molda um novo amanhã,
és liderança,
és luta,
és resistência...
De Sol a Sol,
no Sol a pino,
a cada novo dia, é pelas tuas mãos,
com esperança,
que aguardamos o sustento,
nosso sagrado pão,
nossa luz,
o aconchego,
nossa proteção!


Este é o meu lugar
Desenho uma flor branca,
uma varanda,
uma planície frondosa
e um campo de rosas...
Estou afastado de minha terra,
a milhas de casa,
longe das cantigas de ciranda,
das rodas de crianças...
Distante do meu jardim,
longe do meu quintal,
distante dos jasmins,
aroeiras e alecrins...
E vou levando a vida assim,
no extremo sul do país,
e dizem que vivo na cidade civilizada,
que de cortês não tem nada...
E vivo com a esperança de um dia retornar
e, como o rio, viajar, encontrar o mar
e ver a amplidão de azul da minha terra...
Mata branca de estiagem
e no meu chão as plantas que se despem,
cor esbranquiçada
dos troncos das árvores...
E vejo brotar os sonhos
Desejos de um dia voltar e ver germinar o milagre
e alegre festejar e no meu pomar poder plantar,
Jambo Rosa, Araçá, Umbu, Cajá,
Pitomba, Mangaba e Seriguela,
e dedicar todos os perfumes para ela...
E ver nascer as flores,
emanar o amor, sanar a dor,
a dor da saudade
de léguas de distância da minha terra...
E quando voltar, quem sabe vou bailar
um gostoso pé de serra,
vou com ela, até o dia findar,
até o chão rachar
e juntos comemorar que este é o meu lugar!


Memórias
Âncora poderosa
Foi cuidado, abrigo, doçura e proteção
Força que harmonizou embarcações
Foi sabedoria, grandes ensinamentos
Acalmou corações
Chuva...
Varre dos olhos a terra cor escarlate
Pássaros de eternas lamentações...
Acauã não mais noticia a morte
Anuncia o renascer
Sepultaram o apoucado corpo
Ascendeu o sagrado temporal
Findou a tempestade
Banhou de silêncio
Germinou semente
Fez-se flor, brancos lírios de pureza sublime
Saudade, palavra que define


Milagre
Berço acolhedor onde dormem os grãos,
chão incinerado para a semeadura
que, como enigmas,
brota o alimento.
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